sexta-feira, 19 de junho de 2009

Livros


Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo
Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura
Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:
Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas
Caetano Veloso

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Perdi-me muitas vezes pelo mar,
o ouvido cheio de flores recém-cortadas,
a língua cheia de amor e de agonia.
Muitas vezes me perdi pelo mar,
como me perco no coração de alguns meninos.
(...)
Porque as rosas buscam em frente
uma dura paisagem de osso
e as mãos do homem não têm mais sentido
senão imitar as raízes sob a terra.
Como me perco no coração de alguns meninos,
perdi-me muitas vezes pelo mar.
Ignorante da água vou buscando uma morte de luz que me consuma.

Federico Garcia Lorca

domingo, 14 de junho de 2009

Doug Funny

Tá aí uma das coisas que me deixam louco de saudade da infância, chegar do colégio e ir correndo assistir o Doug Funny. Nada me tirava da frente da TV.


quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quem tem medo de Rosario Tijeras?



Meses atrás, diante de minha curiosidade incontida de saber o que os outros estão lendo, uma amiga me apresentou um livro de Jorge Franco, intitulado Rosario Tijeras. Ao dar uma boa folheada, para me certificar de o que se tratava, muito me intrigou o comentário escrito na contracapa. Gabriel García Márques, Nobel de Literatura de 1982, dizia, sem medir palavras: “Este é um dos autores colombianos a quem eu gostaria de passar a tocha”. E não era pra menos, li o livro e tive uma enorme surpresa. Jorge Franco sabe exatamente onde está pisando. Mestre em criar diálogos, autênticos e ágeis, o autor dá ao texto um tom vibrante que prende o leitor da primeira à última página. Impossível ler as frases iniciais, onde, de cara, nos deparamos com o tema central do livro, amor e morte, e não sentirmos vontade de seguir a leitura: “Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte.”

A personagem-título, Rosario Tijeras, é uma assassina, sensual e enigmática, a quem as pessoas atribuem certas histórias. Dizem que Rosario já matou mais de duzentos, que mija de pé, cobra mil reais por transa, também gosta de mulher, teve um filho com o diabo, está cheia da grana, é chefe de todos os assassinos da cidade, manda tesourar quem não gosta, transa com seus melhores amigos... Nas palavras da própria Rosario, metade disso é mentira, a outra metade, não. Jorge Franco construiu uma personagem forte, independente, o tipo de mulher que não tem medo do perigo e que não costuma levar desaforo pra casa. Rosario, muitas vezes, nos faz lembrar das mulheres do imaginário de outro Jorge, o Amado, criador das memoráveis, Tieta, Gabriela, Dona Flor e Tereza Batista. Seu nome, Tijeras (tesoura, em espanhol), vem da fama de ter capado com uma tesoura um homem que a estuprara anos antes.

Outro ponto alto no romance de Jorge Franco, é o amor platônico que o narrador Antonio nutre pela impiedosa Rosario. Incapaz de declarar o seu amor, até mesmo porque a jovem é amante de seu melhor amigo -Emilio-, Antonio torna-se espectador e cúmplice da vida tumultuada de Rosario, e é ele quem conta sua história a partir dos corredores de um hospital onde a garota, crivada de balas, luta entre a vida e a morte.

O pano de fundo da história é a cidade de Medellín, onde Franco mergulha sutilmente no submundo do narcotráfico e das favelas colombianas, não muito diferentes das favelas do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades brasileiras. Bastaria nos aventurarmos em qualquer baile funk, para encontrarmos uma porção de Rosarios, até mesmo metamorfoseadas em gênero masculino.

Aclamado pela crítica, como um dos mais bem-sucedidos escritores da nova literatura colombiana, Jorge Franco recebeu em 2000, por Rosario Tijeras, o Prêmio Dashiell Hammett de literatura policial. A primeira edição do livro se esgotou em um final de semana e já foram vendidos mais de 80 mil exemplares na Colômbia, além de os direitos terem sido vendidos também para diversos países, entre eles, Argentina, México, Espanha, França, Grécia, Portugal, Itália, Alemanha, Estados Unidos, Holanda e Japão.

Em 2005, a obra foi adaptada para o cinema pelo diretor Emilio Maille. Rosario, na versão cinematográfica, ganhou vida por Flora Martinez, que deve ter tomado muito bronze para poder encarar o papel, uma vez que, no livro, a personagem era tida como mestiça. E não é que, nas telas, Rosario apareceu branca como leite?



Título: Rosario Tijeras
Autor:
Jorge Franco
Tradução: Fabiana Camargo

Editora: Objetiva (Selo: Alfaguara) – 156 p.

(by DB)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"Te olho nos olhos e você reclama que te olho muito profundamente. Desculpa. Tudo o que vivi foi profundamente. Eu te ensinei quem sou e você foi me tirando os espaços entre os abraços, guarda-me apenas uma fresta. Eu que sempre fui livre, não importava o que os outros dissessem. Até onde posso ir pra te resgatar? Reclama de mim, como se houvesse a possibilidade de eu me inventar de novo. Desculpa se te olho profundamente, rente à pele, a ponto de ver seus ancestrais nos seus traços, a ponto de ver a estrada muito antes dos teus passos. Eu não vou separar as minhas vitórias dos meus fracassos. Eu não vou renunciar a mim, nenhuma parte, nenhum pedaço do meu ser, vibrante, errante, sujo, livre, quente. Eu quero estar vivo e permanecer te olhando, profundamente."

http://www.youtube.com/watch?v=G5wR8jbnP2o

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Pequenas Epifanias


Dois ou três almoços, uns silêncios.
Fragmentos disso que chamamos de “minha vida”.



Há alguns dias, Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.
Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de “minha vida”. Outros fragmentos, daquela “outra vida”. De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.
Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.
Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector “Tentação” na cabeça estonteada de encanto: “Mas ambos estavam comprometidos. Ele, com sua natureza aprisionada. Ela, com sua infância impossível”. Cito de memória, não sei se correto. Fala no encontro de uma menina ruiva, sentada num degrau às três da tarde, com um cão basset também ruivo, que passa acorrentado. Ele pára. Os dois se olham. Cintilam, prometidos. A dona o puxa. Ele se vai. E nada acontece.
De mais a mais, eu não queria. Seria preciso forjar climas, insinuar convites, servir vinhos, acender velas, fazer caras. Para talvez ouvir não. A não ser que soprasse tanto vento que velejasse por si. Não velejou. Além disso, sem perceber, eu estava dentro da aprendizagem solitária do não-pedir. Só compreendi dias depois, quando um amigo me falou — descuidado, também — em pequenas epifanias. Miudinhas, quase pífias revelações de Deus feito jóias encravadas no dia-a-dia.
Era isso - aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava: uma pequena epifania. Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite, aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria.
Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. E se estendo a mão, no meio da poeira de dentro de mim, posso tocar também em outra coisa. Essa pequena epifania. Com corpo e face. Que reponho devagar, traço a traço, quando estou só e tenho medo. Sorrio, então. E quase paro de sentir fome.
Caio Fernando Abreu

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Eu queria ter um coração feito de pedra.
Mas até rochedos da beira da estrada choram.