quinta-feira, 7 de maio de 2009

Quem tem medo de Rosario Tijeras?



Meses atrás, diante de minha curiosidade incontida de saber o que os outros estão lendo, uma amiga me apresentou um livro de Jorge Franco, intitulado Rosario Tijeras. Ao dar uma boa folheada, para me certificar de o que se tratava, muito me intrigou o comentário escrito na contracapa. Gabriel García Márques, Nobel de Literatura de 1982, dizia, sem medir palavras: “Este é um dos autores colombianos a quem eu gostaria de passar a tocha”. E não era pra menos, li o livro e tive uma enorme surpresa. Jorge Franco sabe exatamente onde está pisando. Mestre em criar diálogos, autênticos e ágeis, o autor dá ao texto um tom vibrante que prende o leitor da primeira à última página. Impossível ler as frases iniciais, onde, de cara, nos deparamos com o tema central do livro, amor e morte, e não sentirmos vontade de seguir a leitura: “Como levou um tiro à queima-roupa ao mesmo tempo em que recebia um beijo, Rosario confundiu a dor do amor com a da morte.”

A personagem-título, Rosario Tijeras, é uma assassina, sensual e enigmática, a quem as pessoas atribuem certas histórias. Dizem que Rosario já matou mais de duzentos, que mija de pé, cobra mil reais por transa, também gosta de mulher, teve um filho com o diabo, está cheia da grana, é chefe de todos os assassinos da cidade, manda tesourar quem não gosta, transa com seus melhores amigos... Nas palavras da própria Rosario, metade disso é mentira, a outra metade, não. Jorge Franco construiu uma personagem forte, independente, o tipo de mulher que não tem medo do perigo e que não costuma levar desaforo pra casa. Rosario, muitas vezes, nos faz lembrar das mulheres do imaginário de outro Jorge, o Amado, criador das memoráveis, Tieta, Gabriela, Dona Flor e Tereza Batista. Seu nome, Tijeras (tesoura, em espanhol), vem da fama de ter capado com uma tesoura um homem que a estuprara anos antes.

Outro ponto alto no romance de Jorge Franco, é o amor platônico que o narrador Antonio nutre pela impiedosa Rosario. Incapaz de declarar o seu amor, até mesmo porque a jovem é amante de seu melhor amigo -Emilio-, Antonio torna-se espectador e cúmplice da vida tumultuada de Rosario, e é ele quem conta sua história a partir dos corredores de um hospital onde a garota, crivada de balas, luta entre a vida e a morte.

O pano de fundo da história é a cidade de Medellín, onde Franco mergulha sutilmente no submundo do narcotráfico e das favelas colombianas, não muito diferentes das favelas do Rio de Janeiro e de tantas outras cidades brasileiras. Bastaria nos aventurarmos em qualquer baile funk, para encontrarmos uma porção de Rosarios, até mesmo metamorfoseadas em gênero masculino.

Aclamado pela crítica, como um dos mais bem-sucedidos escritores da nova literatura colombiana, Jorge Franco recebeu em 2000, por Rosario Tijeras, o Prêmio Dashiell Hammett de literatura policial. A primeira edição do livro se esgotou em um final de semana e já foram vendidos mais de 80 mil exemplares na Colômbia, além de os direitos terem sido vendidos também para diversos países, entre eles, Argentina, México, Espanha, França, Grécia, Portugal, Itália, Alemanha, Estados Unidos, Holanda e Japão.

Em 2005, a obra foi adaptada para o cinema pelo diretor Emilio Maille. Rosario, na versão cinematográfica, ganhou vida por Flora Martinez, que deve ter tomado muito bronze para poder encarar o papel, uma vez que, no livro, a personagem era tida como mestiça. E não é que, nas telas, Rosario apareceu branca como leite?



Título: Rosario Tijeras
Autor:
Jorge Franco
Tradução: Fabiana Camargo

Editora: Objetiva (Selo: Alfaguara) – 156 p.

(by DB)

Um comentário:

Geordana Cavalheiro disse...

"Rosários metaforseadas em homem". Adorei! Pensei logo na saudosa Lacraia (tô falando sério, gostava dela; corajosa!). Rosário sofreu, aprendeu com a dor, mesclou a dor e o ódio com algo que ela pensou ser amor, já que nunca recebeu isso de ninguém. Instintiva, crua, politicamente incorreta, dura, cruel e pura. Adorei a resenha!!