Machado de Assis
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
"Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Mais uma vez, ausência
Tenho mastigado um sentimento amargo. Fecho os olhos constantemente, inflo o peito de ar e o sinto atravancado. Angustia, poeira incrustada sobre a alma, quinquilharia difícil de mover. Sensação de nuvem carregada, céu pesado antes da tempestade. Emerge à cabeça toda hora uma das primeiras lições que tive nas aulas de lógica, a contingência. Algo que “é”, poderia “não ser”. Explico então o que se passa: a morte vem revelando suas nuances.
O prelúdio foi a repentina obsessão por um poema de Quintana, um iluminado poema de Quintana que narra a morte de Leon Tolstoi. Depois, aconteceu que, em véspera de feriado de finados, eu, sem me dar conta, vestia preto de cima a baixo e almoçava quando o telefone tocou e recebi a notícia do falecimento de uma tia distante. Por mais que eu não convivesse com ela e até mesmo não a visse há anos, aquela notícia me deixou profundamente chateado. Logo fiz um esforço mental para remontar a imagem que tinha dela. Tia Mosa foi uma costureira de mão cheia. Seu ateliê ficava no porão da antiga casa de madeira onde morava. Fazia vestidos lindos e possuía uma seleta, mas fiel cartela de clientes. Quando criança, seguidamente eu ia até lá com minha mãe e passava as tardes brincando com as pilhas de sacos de retalhos e sobras de tecido que ficavam empilhados em um canto do ateliê. Antes de ir embora, recordo que ela sempre me servia um copo de Nescau e uma tigela de biscoitos. Com o passar dos anos, tia Mosa foi perdendo a visão devido ao diabetes. Chegou o dia em que precisou deixar a costura de lado e, daí por diante, passou a morar com o filho. A última informação que tive é que ela já estava muito velhinha e com dificuldades para andar.
Instintivamente me questionei: afinal, o que era morrer? Ou melhor, o que era viver? O que resta de nós após a morte? Foi quando me ocorreu o trecho de um livro de Lya Luft (Mar de Dentro), que descreve uma menina que encontra um pássaro morto, e... “Ela não se conforma. O nunca-mais ainda é vago para ela, mas certamente nesse momento é ameaçador. Por algum tempo carrega o bichinho junto do peito, porém o calor é apenas seu, do seu amor, do seu desejo de dar vida. Finalmente combinam um enterro, a pomba ajeitada entre folhas e pétalas numa caixinha qualquer, ela e o pai a enterram num canteiro. Mas antes de fechar a tampa da caixa, a menina ainda acaricia aquilo que já não voará, e entende, sem palavras entende: o peso dos ossinhos, a maciez das penas, o pobre bico para sempre fechado não formavam o pássaro. Faltava-lhe, para ser pássaro, a curva do vôo, a visão do alto, faltava-lhe ser a invenção de um pássaro. Quem o tinha desinventado, quem o esquecera? Morrer era ser esquecido por quem?” Então me deu certa tristeza e um pouco de desgosto em pensar que, talvez, seriam poucos os que sentiriam falta se eu morresse amanhã. E que lembranças iriam ter? Porque a vida, quando deixa de ser física, se torna isso, lembrança. E lembranças precisam ser alimentadas, caso contrário, vão diminuindo até deixarem de existir.
Pensei também, não apenas na nossa ausência em si, mas na ausência deixada por aqueles que amamos. E só de pensar, um enorme nó se ata na garganta. A boca seca. Sede danada de querer de volta o que nunca mais será.
Noite passada tive um sonho ruim. Talvez seja pelo medo que tem me tomado nos últimos dias, mas sonhei ter perdido minha mãe. Acordei assustado, tentando entender se havia sido sonho ou se era real. Chorei de soluçar. Lembrei que meses antes havia tido o mesmo sonho e a mesma reação. Nesta primeira vez, telefonei no meio da madrugada para uma pessoinha que dividia a vida comigo naquela época, pedindo colo. O agravante foi que dessa vez, eu não tinha mais para quem ligar. Então o medo causado pelo sonho, se misturou ao medo causado por aquilo que resta de um amor de águas passadas. Como dizia Cazuza: “Tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa?”
O prelúdio foi a repentina obsessão por um poema de Quintana, um iluminado poema de Quintana que narra a morte de Leon Tolstoi. Depois, aconteceu que, em véspera de feriado de finados, eu, sem me dar conta, vestia preto de cima a baixo e almoçava quando o telefone tocou e recebi a notícia do falecimento de uma tia distante. Por mais que eu não convivesse com ela e até mesmo não a visse há anos, aquela notícia me deixou profundamente chateado. Logo fiz um esforço mental para remontar a imagem que tinha dela. Tia Mosa foi uma costureira de mão cheia. Seu ateliê ficava no porão da antiga casa de madeira onde morava. Fazia vestidos lindos e possuía uma seleta, mas fiel cartela de clientes. Quando criança, seguidamente eu ia até lá com minha mãe e passava as tardes brincando com as pilhas de sacos de retalhos e sobras de tecido que ficavam empilhados em um canto do ateliê. Antes de ir embora, recordo que ela sempre me servia um copo de Nescau e uma tigela de biscoitos. Com o passar dos anos, tia Mosa foi perdendo a visão devido ao diabetes. Chegou o dia em que precisou deixar a costura de lado e, daí por diante, passou a morar com o filho. A última informação que tive é que ela já estava muito velhinha e com dificuldades para andar.
Instintivamente me questionei: afinal, o que era morrer? Ou melhor, o que era viver? O que resta de nós após a morte? Foi quando me ocorreu o trecho de um livro de Lya Luft (Mar de Dentro), que descreve uma menina que encontra um pássaro morto, e... “Ela não se conforma. O nunca-mais ainda é vago para ela, mas certamente nesse momento é ameaçador. Por algum tempo carrega o bichinho junto do peito, porém o calor é apenas seu, do seu amor, do seu desejo de dar vida. Finalmente combinam um enterro, a pomba ajeitada entre folhas e pétalas numa caixinha qualquer, ela e o pai a enterram num canteiro. Mas antes de fechar a tampa da caixa, a menina ainda acaricia aquilo que já não voará, e entende, sem palavras entende: o peso dos ossinhos, a maciez das penas, o pobre bico para sempre fechado não formavam o pássaro. Faltava-lhe, para ser pássaro, a curva do vôo, a visão do alto, faltava-lhe ser a invenção de um pássaro. Quem o tinha desinventado, quem o esquecera? Morrer era ser esquecido por quem?” Então me deu certa tristeza e um pouco de desgosto em pensar que, talvez, seriam poucos os que sentiriam falta se eu morresse amanhã. E que lembranças iriam ter? Porque a vida, quando deixa de ser física, se torna isso, lembrança. E lembranças precisam ser alimentadas, caso contrário, vão diminuindo até deixarem de existir.
Pensei também, não apenas na nossa ausência em si, mas na ausência deixada por aqueles que amamos. E só de pensar, um enorme nó se ata na garganta. A boca seca. Sede danada de querer de volta o que nunca mais será.
Noite passada tive um sonho ruim. Talvez seja pelo medo que tem me tomado nos últimos dias, mas sonhei ter perdido minha mãe. Acordei assustado, tentando entender se havia sido sonho ou se era real. Chorei de soluçar. Lembrei que meses antes havia tido o mesmo sonho e a mesma reação. Nesta primeira vez, telefonei no meio da madrugada para uma pessoinha que dividia a vida comigo naquela época, pedindo colo. O agravante foi que dessa vez, eu não tinha mais para quem ligar. Então o medo causado pelo sonho, se misturou ao medo causado por aquilo que resta de um amor de águas passadas. Como dizia Cazuza: “Tive um sonho ruim e acordei chorando, por isso eu te liguei. Será que você ainda pensa em mim? Será que você ainda pensa?”
10/11/2009
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Poema da Gare de Astapovo

O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos de infância!
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A morte chegou na sua locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos que realizam os velhos sonhos de infância!
Mário Quintana
sábado, 24 de outubro de 2009
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Divagações sobre um punhado de areia
.

Dia desses, li uma frase que dizia mais ou menos assim: "O amor é como um punhado de areia na mão. Com sabedoria, pode-se criar um reinado. Mas se a mão fecha demais, escorre pelos dedos. E se aberta demais, voa pelos ares." Cito de memória, não sei se correto. E o autor, constava como desconhecido.
Posso dizer que já tive nas mãos alguns punhados de areia. Já de início, é preciso agradecer por ter-se nas mãos, justamente um punhado de areia. E não, outras substâncias menos concretas, como a água, difícil de deter. Quando queremos muito algo, tendemos a segurá-lo com todas as forças. Mas a força afugenta. É preciso, então, ponderar. Insinuar, fazer tipos, mascarar o desejo, a vontade. É preciso, estar afim, sem parecer estar tão afim. Da mesma forma que, se a mão afrouxa demais, a coisa pode escapar por entre os dedos, não persistir. Qual seria a fórmula então? Um abraço folgado em vez de um bem apertado. Aproximações breves e alternadas, ao invés de presenças constantes. Palavras que apenas insinuem, em vez das que realmente dizem.
Neste "querer, sem querer", pergunto: quando é que a coisa acontece de fato? É quando há a vontade de dizer, em vez de insinuar? É quando há a necessidade da presença constante, ao invés da aproximação breve e alternada? É quando os abraços folgados e sem vigor dão lugar aos beijos e abraços apertados?
Com sabedoria, pode-se criar um reinado.
Posso dizer que já tive nas mãos alguns punhados de areia. Já de início, é preciso agradecer por ter-se nas mãos, justamente um punhado de areia. E não, outras substâncias menos concretas, como a água, difícil de deter. Quando queremos muito algo, tendemos a segurá-lo com todas as forças. Mas a força afugenta. É preciso, então, ponderar. Insinuar, fazer tipos, mascarar o desejo, a vontade. É preciso, estar afim, sem parecer estar tão afim. Da mesma forma que, se a mão afrouxa demais, a coisa pode escapar por entre os dedos, não persistir. Qual seria a fórmula então? Um abraço folgado em vez de um bem apertado. Aproximações breves e alternadas, ao invés de presenças constantes. Palavras que apenas insinuem, em vez das que realmente dizem.
Neste "querer, sem querer", pergunto: quando é que a coisa acontece de fato? É quando há a vontade de dizer, em vez de insinuar? É quando há a necessidade da presença constante, ao invés da aproximação breve e alternada? É quando os abraços folgados e sem vigor dão lugar aos beijos e abraços apertados?
Com sabedoria, pode-se criar um reinado.
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