segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Extremos da Paixão


Não, meu bem, não adianta bancar o distante
lá vem o amor nos dilacerar de novo...

Andei pensando coisas. O que é raro, dirão os irônicos. Ou "o que foi?" - perguntariam os complacentes. Para estes últimos, quem sabe, escrevo. E repito: andei pensando coisas sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a)- mas a morte é inevitável, portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor - essa pessoa - continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo - porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER.

Pensando nisso, pensei um pouco depois em Boy George: meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado. Lembrei de John Hincley Jr., apaixonado por Jodie Foster, e que escreveu a ela, em 1981: "Se você não me amar, eu matarei o presidente". E deu um tiro em Ronald Regan. A frase de Hincley é a mais significativa frase de amor do século XX. A atitude de Boy George - se não houver algo de publicitário nisso - é a mais linda atitude de amor do século XX. Penso em Werther, de Goethe. E acho lindo.

No século XX não se ama. Ninguém quer ninguém. Amar é out, é babaca, é careta. Embora persistam essas estranhas fronteiras entre paixão e loucura, entre paixão e suicídio. Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio. Não compreendo como querer o outro possa pintar como saída de nossa solidão fatal. Mentira: compreendo sim. Mesmo consciente de que nasci sozinho do útero de minha mãe, berrando de pavor para o mundo insano, e que embarcarei sozinho num caixão rumo a sei lá o quê, além do pó. O que ou quem cruzo entre esses dois portos gelados da solidão é mera viagem: véu de maya, ilusão, passatempo. E exigimos o terno do perecível, loucos.

Depois, pensei também em Adèle Hugo, filha de Victor Hugo. A Adèle H. de François Truffaut, vivida por Isabelle Adjani. Adèle apaixonou-se por um homem. Ele não a queria. Ela o seguiu aos Estados Unidos, ao Caribe, escrevendo cartas jamais respondidas, rastejando por amor. Enlouqueceu mendigando a atenção dele. Certo dia, em Barbados, esbarraram na rua. Ele a olhou. Ela, louca de amor por ele, não o reconheceu. Ele havia deixado de ser ele: transformara-se no símbolo sem face nem corpo da paixão e da loucura dela. Não era mais ele: ela amava alguém que não existia mais, objetivamente. Existia somente dentro dela. Adèle morreu no hospício, escrevendo cartas (a ele: "É para você, para você que eu escrevo" - dizia Ana C.) numa língua que, até hoje, ninguém conseguiu decifrar.

Andei pensando em Adèle H., em Boy George e em John Hincley Jr. Andei pensando nesses extremos da paixão, quando te amo tanto e tão além do meu ego que - se você não me ama: eu enlouqueço, eu me suicido com heroína ou eu mato o presidente. Me veio um fundo desprezo pela minha/nossa dor mediana, pela minha/nossa rejeição amorosa desempenhando papéis tipo sou-forte-seguro-essa-sou-mais-eu. Que imensa miséria o grande amor - depois do não, depois do fim - reduzir-se a duas ou três frases frias ou sarcásticas. Num bar qualquer, numa esquina da vida.

Ai que dor: que dor sentida e portuguesa de Fernando Pessoa - muito mais sábio -, que nunca caiu nessas ciladas. Pois como já dizia Drummond, "o amor car(o,a,) colega esse não consola nunca de núncaras". E apesar de tudo eu penso sim, eu digo sim, eu quero Sins.

Caio F. - O Estado de S. Paulo, 08/07/86.

5 comentários:

Marcio Nicolau disse...

Daniel, muito bom o texto. Estou seguindo você.
Se me permite, discordo apenas do ponto em que vc afirmar se uma declaração de amor: "meu-amor-me-abandonou-e-sem-ele-eu-nao-vivo-então-quero-morrer-drogado". Há aqui o tal extremo da paixão, mas não amor, pelo simples fato de que amor é vida e não morte.
Um abraço e saiba: gostei demais de chegar até aqui.

Marcio Nicolau
www.espacointertextual.blogspot.com

Kivia Nascentes disse...

Sabe que eu já tinha pensando exatamente essas coisas do primeiro parágrafo? As vezes, pode ser horrivel pensar assim, mas o fim do amor pode ser mais trágico que a própria morte dependendo da dimensão, do espaço que aquilo tem dentro de uma pessoa. Ela morre e continua viva, como uma sombra.

Eu sou adpeta do amor romântico, acredito piamente dele. E concordo com essa parte de que hoje em dia as pessoas julgam "careta, cafona" o amor. As relações, assim como o tempo estão rápidas demais, como as novas tecnológias, muito rápido, muda rápido, e sempre vão procurando artificios para inovar.

Falar sobre amor é sempre complicado. Essa fronteira onde vc se perde e começa a depender do outro é quase invisível e na maioria das vezes é ultrapassada. Amor não se aprende. Livros de auto-ajuda nunca vão ajudar no amor. É como respirar, e só.

Kivia Nascentes disse...

Mas um detalhe, agora que vi que a imagens é a Effy e o Freddie.
achava tão lindo o modo como ele se esforçou pra tirar ela da loucura na quarta temporada.
ashuas
beijos.

Além mar... Além mim disse...

Muito legal.
O amor sempre em questão.
O amor em que estão?

morremos e nascemos e morremos pelo/para/do/através do amor.

:****

RIBEIRO, Day disse...

Adoro o Caio. Ótima escolha. Estou seguindo seu blog, se me permite. Já li quase todas as suas postagens.
Abraços,

Dayane Ribeiro