domingo, 11 de outubro de 2009

Aos meus amigos


Nem tão beats como os célebres amigos de Allen Ginsberg, mas com tantas histórias quanto, seguem estas linhas complementares ao Uivo beatnik que contam a história de outro grupo de amigos, um tanto mais ao sul...

que andaram sob a chuva pela madrugada cantarolando Fafá de Belém,

que pintaram seus cabelos de azul e coloriram paredes, toalhas, lençóis e cortinas de quartos de motel,

que vestiram-se com saias de tule verde-limão e celebraram a vida dançando ao som de Xuxa Meneguel,

que rolaram na grama de madrugada aos socos e golpes de taquara interrompendo festas de aniversário,

que dormiram ao lado de B e acordaram ao lado de W,

que tiveram ataques de sonambulismo em horas inapropriadas,

que em plena vertigem destruíram banheiros, beijaram os pés de estátuas de Netuno, vomitaram em estações de trem ou abraçados em vasos sanitários,

que abraçados foram atropelados,

que beberam shampoo por achar que a vida estava um tanto densa, pesada demais, na esperança, talvez, de flutuar como bolha de sabão,

que tantas vezes lutaram pelo amor, tiveram a ilusão de tê-lo e no fim voltaram machucados para o colo uns dos outros,

que dançaram Like a Virgin em finais de tarde no Parque da Redenção e se conheceram,

que tomaram porres históricos à base de vinho barato aglomerando-se pelas calçadas e interagindo com estranhos,

que estudaram arduamente para, quem sabe, em um futuro não muito distante exercerem a profissão de corretores imobiliários,

que foram abordados ao nascer do dia por bandos de ogros curiosos-pederástas que fizeram seu circo e os enxotaram a leves pancadas de cassetetes nos traseiros,

que passaram feriados de carnaval reunidos em apartamentos, praticamente sem dinheiro, alimentando-se a suco, sanduíche e carne de soja,

que esgotaram garrafas de absinto em boates litorâneas,

que percorreram a cidade pelos lugares mais improváveis, dormiram em sofás de casas desconhecidas e foram acordados por travestis,

que por ironia do destino se pecharam em quartos escuros,

que arranjaram uma Igreja alternativa para rezarem sempre que quiserem,

que praticamente todo o tempo vivem como casais, apesar de serem simplesmente amigos,

que estiveram em camarins de grandes teatros entrevistando divas da comédia,

que arremessaram garrafas ao se sentirem traídos,

...são estes os abençoados.

3 comentários:

Ur!3L disse...

lindo esse texto... perfeito!
adorei o estilo. Parabéns!

Fabrizio Rodrigues disse...

nossa... estou arrepiado... sutilmente arrepiado

Vivi disse...

Um pé é meu, umas histórias são minhas.... engraçadas e perfeitas assim como vcs!