domingo, 28 de outubro de 2012

Beta, beta, Bethânia



Então ela chega e diz: "Dá licença, rock and roll, que a tia vai cantar o amor"


Os muitos darks que me perdoem, mas Maria Bethânia é fundamental. Sei, vocês vão dizer que ela é brega, careta, exagerada, melodramática. Pode ser. Mas essa coisa chamada vida onde estamos metidos até o pescoço, às vezes não é brega, careta, melodramática? A Vida é mais Nelson Rodrigues ou mais Clarice Lispector? Mais Augusto dos Anjos ou Emily Dickinson? Fassbinder ou Jacques Demy? Philip Glass ou Dead Kennedys? Mais Sex Pistols ou mais Cecília Meireles? Bukowski ou Bergman?

Tudo isso, sim, e muito mais. O engarrafamento às seis da tarde de uma sexta-feira de chuva, na marginal do Tietê, pode ser uma emoção-Titãs (tipo Bichos Escrotos). Transar com a garota prostituta da rua Augusta, de minissaia de couro e correntinha no tornozelo, pode ser uma emoção-Dalton Trevisan. Dar um espirro bem na hora de dizer eu-te-amo pode ser uma emoção-Woody Allen. Assim por diante, cada coisa sendo uma coisa diferente. Porque o que vai sendo vivido e sentido por cada um é tão particular que, mesmo lugar comum ou já cantado em prosa e verso, é para sempre também único. Infinitiva e indivisivelmente subjetivo.

Nossa, como estou me dispersando. O que quero dizer é muito simples – adoro Maria Bethânia. Por um tempo, aposentei Eurythmics, The Cure, Talking Heads, Legião Urbana, Sting, Paul Simon – só consigo Bethânia.

Ando tomado por emoções-Bethânia. Essas, que estão morrendo à míngua, poque não é moderno ter emoções. Não é in sentir amor, envolver-se. Ficou out dizer coisas como “quero ficar com você/ e é tão fundo que eu posso dizer/ que o fim do mundo não vai chegar mais” ou “parece bolero/ te quero, te quero/ dizer que não quero/ teus beijos nunca mais” ou “quando os caminhos se separam/ não tem razão que dê mais jeito” ou “é tão difícil ficar sem você/ o teu amor é gostoso demais”. É burro cantar coisas que eu, tu, ele, nós sentimos? É brega ter desejos e carências e dores e suspiros assim, de gente?

Sentir não é brega. Ao contrário: não existe nada mais chique. Emocione-se e seja o rei de sua insensatez. Seja nobre, seja divino no desconcerto das emoções. Maria Bethânia é muito chique, e quase ninguém está vendo isso. Em Dezembros, sem querer fazer nenhuma revolução, ela chega e diz: “Dá licença, rock and roll, que a titia vai cantar o amor”. E eu peço: Crianças, cessem as guitarras, os teclados, os sintetizadores – um minuto só – e prestem atenção na voz quente dessa mulher linda do jeito inverso da beleza, cantando (que ousadia!) o amor.

Sei: a aids está solta, e o que era possibilidade de amor agora é possibilidade de morte. Nem por isso é possível parar de amar. Você consegue? Eu não. E não tenho medo. Sem platonismos, nem zen-budismos: quero que pinte o amor-Bethânia, dançar de rosto colado, pegar na mão à meia-luz, desenhar com a ponta dos dedos cada um dos teus traços, ficar de olho molhado só de te ver, de repente e, se for preciso, também virar a mesa, dar tapa na cara, escândalo na esquina, encher a cara de gim, te expulsar de casa e te pedir pra voltar.

Darks, pós-modernos, minimalistas, glitters, apocalípticos, concretistas, skinheads, me perdoem. Na noite de sábado, caminhando sozinho pela avenida Paulista, o quarto-crescente brilhando sobre a torre da TV Globo, uma vontade desesperada de ter alguém – as únicas canções que me vieram à mente para cantar baixinho foram canções de Bethânia. Doía fundo estar perdido na grande cidade, era completamente sem remédio ser só uma pessoazinha machucada. Mas brotou então um orgulho tão grande de ser ainda capaz de sentir o coração cheio de emoções-Bethânia que era quase como uma felicidade. Sagrada, do avesso – que importa? Era real, era vivo. Isso é muito, e Bethânia canta.


Caio Fernando Abreu - O Estado de S. Paulo, 11/02/1987

terça-feira, 3 de julho de 2012

Ai Se Sêsse

Se um dia nós se queresse;
Se nós dois se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
... te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!

(Zé da luz - Cordel do Fogo Encantado)

sábado, 16 de junho de 2012

terça-feira, 12 de junho de 2012

100 Coisas Sobre Mim | DANIEL BRAGA


1. Gosto (e sinto necessidade) de viajar
2. Amo livros
3. Trabalhei alguns anos como livreiro
4. Me tornei agente de viagens
5. Fiz curso de comissário de voo
6. Resolvi morar um tempo em Buenos Aires
7. Sou canceriano
8. Gosto de meninos
9. e de meninas também
10. Não sou nada sem meus amigos
11. Sempre estou disponível pra eles
12. Minha família também é importante pra mim
13. Posso dizer que já tive alguns amores
14. Curto a vida de casado e a de solteiro com a mesma intensidade
15. Sou saudosista
16. Dou muito valor às minhas experiências, sejam elas boas ou nem tanto
17. Não gosto de gente que fica se lamentando
18. Me sinto desconfortável usando roupa social
19. Tenho fama de pagodeiro
20. Curto festas
21. Também curto estar em casa escutando música ou vendo um bom filme
22. Adoro ir ao cinema sozinho
23. Sempre que vou a um videokê, canto alguma dessas músicas: "Evidências" ou "Deslizes"
24. Muitos dos meus amigos lembram de mim ao ouvirem Fafá de Belém
25. Me arrepio toda vez que escuto Elis Regina cantando "Como Nossos Pais"
26. Cresci na zona sul de Porto Alegre
27. Sempre fui fascinado pelo jornalismo, mas nunca tive contato com a profissão
28. Cursei duas faculdades (turismo e filosofia), mas não terminei nenhuma delas
29. Pretendo terminá-las
30. Não sigo nenhuma religião
31. Aliás, não sigo radicalmente nenhuma ideologia
32. Mesmo assim, tenho opinião formada sobre muitas coisas
33. Essas opiniões podem mudar a qualquer momento
34. Nunca estive em um funeral
35. Gosto de pensar sobre a vida
36. Falo sozinho seguidamente
37. A culinária italiana é a minha preferida
38. Amo cafés, de todos os tipos
39. Já tive cabelo igual ao da Amelie Poulain
40. Houve uma vez também em que tingi o cabelo de azul
41. Sou fã incondicional de Caio Fernando Abreu
42. Tenho sempre algum livro dele na mochila ou embaixo do travesseiro
43. Detesto acordar cedo
44. Minha cabeça funciona melhor à noite
45. Prefiro o verão ao inverno
46. Sexo é bom, mas acredito que dormir de conchinha pode ser ainda melhor
47. Me derreto todo se alguém toca violão pra mim
48. Definitivamente não amo uma pessoa só pelo fato de ela ser "bonita"
49. Sou romântico, mas também posso ser o maior canalha que esse mundo já viu
50. Não fumo
51. Marcas e grifes não me dizem muita coisa
52. Troco um passeio no shopping por um passeio no parque
53. Conversas em mesas de bar me parecem ótimas
54. Já fiz teatro
55. Nunca quebrei nenhuma parte do meu corpo
56. Gostaria de ter uns 10kg a mais
57. Também adoro chocolate, como 99% da população
58. Sorvete de uva faz milagres ao meu paladar
59. Quando criança, meu maior desejo era ter um pônei e um balde de Lego
60. Não tive nenhum dos dois
61. O primeiro filme que assisti no cinema foi: "Gasparzinho - O Fantasminha Camarada"
62. Me divirto muito assistindo comédias românticas
63. Nem por decreto assisto filmes de terror
64. Podem falar e pensar o que quiserem, mas minha música de formatura será "Lua de Cristal"
65. Tenho muita vontade de conhecer o Equador
66. Gosto de escrever
67. Tempos atrás publiquei alguns contos numas antologias
68. O mar é algo que me encanta
69. Não gosto que me vejam chorando
70. Já apontaram uma arma pra mim
71. Tenho amigos que poderiam escrever com fidelidade a minha biografia
72. Sou o filho mais novo e tenho dois irmãos
73. Já tive uma cocota
74. Não sei me equilibrar em nada que tenha rodinhas
75. Gosto de deitar na grama e ficar olhando o céu
76. Gosto de fotografias
77. Queria ter estado em Woodstock
78. Me aborreço quando vou comprar roupas porque tudo que experimento fica grande
79. Costumo me dedicar muito às pessoas que amo
80. As pessoas que amei são eternas pra mim. Não tente me fazer esquecê-las.
81. Sou observador
82. Aprendi a batalhar pelos meus objetivos
83. Uma vez quase me afoguei
84. Meu quarto é meu porto seguro
85. Adoro aquele friozinho na barriga que a gente sente quando desce lomba, anda de avião ou de elevador
86. Acredito que um abraço apertado serve de remédio pra muitas coisas
87. Beijo na boca é uma delícia
88. Não me envergonho de nada que eu possa sentir
89. Eu casaria comigo
90. Gostaria de visitar Neuschwanstein (Castelo do Rei Louco da Baviera), que inspirou Walt Disney a criar o Castelo da Cinderela do Magic Kingdom
91. Geralmente acordo com um bom humor que chega a ser irritante
92. Não tenho tatuagem
93. Gosto muito de dançar tudo o que se dança junto... forró, pagode, música gaúcha, dança de salão.
94. Escrevo cartas
95. Ainda quero pular de paraquedas
96. Brincava de casinha com meus soldadinhos
97. Nunca tive uma festa surpresa
98. Sempre me pergunto qual é a lembrança que as pessoas vão ter de mim quando eu morrer
99. Prefiro Toddy ao tédio
100. Sou muito feliz

quinta-feira, 7 de junho de 2012

 
Não morro de amores
por pessoas sem mistério
quando se é muito transparente
muito risonho e educado
é raro ser levado a sério
...prefiro os mais silenciosos
os que abrem a boca de menos
os mais serenos e mais perigosos
aqueles que ninguém define
e que sempre analisam os fatos
por um novo enfoque
prefiro os que têm estoque
aos que deixam tudo à mostra na vitrine.

(- Martha Medeiros in “Poesia Reunida” -)

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Eis um vídeo muito bacana sobre Caio Fernando Abreu.

Ao que percebe-se, foi produzido para divulgação da biografia escrita por Paula Dip, "Para Sempre Teu, Caio F."

Faltam alguns depoimentos importantes como, por exemplo, do Luciano Alabarce, Gilberto Grawonski, Grace Gianoukas, Lygia Fagundes Telles, João Gilberto Noll, Jaqueline Cantore, Cláudia Abreu e da própria Paula Dip. Mas tem gravações raras, como a que mostra o Caio em um período em que esteve em Saint-Nazaire (França) e escreveu "Bem longe de Marienbad"; depois outra, dando entrevista, anos mais tarde, no Parque Marinha em Porto Alegre, quando já havia descoberto ser portador do vírus HIV.

Clique aqui para assistir.


"Eu gosto de estar vivo... e eu tenho consciência agora de que
eu gosto de estar vivo... e eu acho que isso é sinônimo de ser feliz."


terça-feira, 1 de maio de 2012

A BEIRA DO MAR ABERTO

..................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................e de novo me vens e me contas do mar aberto das costas de tua terra, do vento gelado soprando desde o pólo, nos invernos, sem nenhuma baía, nenhuma gaivota ou albatroz sobrevoando rasante o cinza das águas para mergulhar, como certa vez,em algum lugar, rápido iscando um peixe no bico agudo, mas essas outras águas que lembro eram claras verdes, havia sol e acho que também um reflexo de prata no bico da ave no momento justo do mergulho, nessas águas de que me falas quando me tomas assim e me levas para histórias ou caminhadas sem fim não há verde nem é claro, o sol não transpõe as nuvens, e te imagino então parado sozinho sobre a faixa interminável de areia, o vento que bate em teu rosto, as mãos comos dedos roxos de frio enfiadas até o fundo dos bolsos, o vento e novamente o vento que bate em teu rosto, esse mesmo que me olha agora, raramente, teu olho bate em mim e logo se desvia, como se em minhas pupilas houvesse uma faca, uma pedra, um gume, teu rosto mais nu que sempre, à beira-mar, com esse vento a bater e a revolver teus cabelos e pensamentos, e eu sem saber o que me revolve agora quando teu olho outra vez escorrega para fora e longe do meu, entre tua testa larga de onde às vezes costumas afastar os cabelos com ambas as mãos, numa mistura de preguiça e sensualidade expostas, e ,quando teu olho se afasta assim, não sei para onde, talvez para esse mesmo lugar onde te encontravas ontem, à beira do mar aberto, onde não penetro, como não te penetro agora, mas é quando a pedra ou faca no fundo do meu olho afasta o teu é que te olho detalhado, e nunca saberás quanto e como já conheço cada milímetro da tua pele, esses vincos cada vez mais fundos circundando as sobrancelhas que se erguem súbitas para depois diluírem-se em pêlos cada vez mais ralos, até a região onde os raspas quase sempre mal, e conheço também esses tocos de pelos duros e secretos, escondidos sob teu lábio inferior, levemente partido ao meio, e tão dissimulado te espio que nunca me percebes assim, te devassando como se através de cada fiapo, de cada poro, pudesse chegar a esse mais de dentro que me escondes sutil, obstinado, através de histórias como essa, do mar, das velhas tias, dasiniciações, dos exílios, das prisões, das cicatrizes, e em tudo que me contas pensando, suponho, que é teu jeito de dar-se a mim, percebo farpado que te escondes ainda mais, como se te contando a mim negasse que deliberado a possibilidade de te descobrir atrás e além de tudo que me dizes, é por isso que me escondo dessas tuas histórias que me enredam cada vez mais no que não és tu, mas o que foste, tento fugir para longe e a cada noite, como uma criança temendo pecados, punições de anjos vingadores com espadas flamejantes, prometo a mim mesmo nunca mais ouvir, nunca mais ter a ti tão mentirosamente próximo, e escapo brusco para que percebas que mal suporto a tua presença, veneno veneno, às vezes digo coisas ácidas e de alguma forma quero te fazer compreender que não é assim, que tenho um medo cada vez maior do que vou sentindo em todos esses meses, e não se soluciona, mas volto e volto sempre, então me invades outra vez com o mesmo jogo e embora supondo conhecer as regras, me deixo tomar inteiro por tuas estranhas liturgias, a compactuar com teus medos que não decifro, a aceitá-los como um cão faminto aceita um osso descarnado, essas migalhas que me vais jogando entre as palavras e os pratos vazios, torno sempre a voltar, talvez penalizado do teu olho que não se debruça sobre nenhum outro assim como sobre o meu, temendo a faca, a pedra, o gume das tuas histórias longas, das tuas memórias tristes, cheias de corredores mofados, donzelas velhas trancadas em seus quartos, balcões abertos sobre ruazinhas onde moças solteiras secam o cabelo, exibindo os peitos, tornarei sempre a voltar porque preciso desse osso, dos farelos que me têm alimentado ao longo deste tempo, e choro sempre quando os dias terminam porque sei que não nos procuraremos pelas noites, quando o meu perigo aumenta e sem me conter te assaltaria feito um vampiro faminto para te sangrar e te deixar mudo, sem nenhuma história a te esconder de mim, enquanto meus dentes penetrando nas veias da tua garganta arrancassem do fundo essa vida que me negas delicadamente, de cada vez que me procuras e me tomas, contudo me enveneno mais quando não vens e ninguém então me sabe parado feito velho num resto de sol de agosto, escurecido pela tua ausência, e me anoiteço ainda mais e me entrevo tanto quando estás presente e novamente me tomas e me arrancas de mim me desguiando por esses caminhos conhecidos onde atrás de cada palavra tento desesperado encontrar um sentido, um código, uma senha qualquer que me permita esperar por um atalho onde não desvies tão súbito os olhos, onde teu dedo não roce tão passageiro no meu braço, onde te detenhas mais demorado sobre isso que sou e penses quem sabe que se aceito tuas tramas, e vomitas sobre mim, depois puxas a descarga e te vais, me deixando repleto dos restos amargos do que não digeriste, mas mesmo assim penses que poderias aceitar também meus jogos, esses que não proponho, ah detritos, mas tudo isso é inútil e bem sei de como tenho tentado me alimentar dessa casca suja que chamamos com fome e pena de pequenas-esperanças, enquanto definho feito um animal alimentado apenas com água, uma água rala e pouca, não essa densa espessa turva do mar de que me falaste. no começo da tarde que agora vai-se indo devagar atrás das minhas costas, e parado aqui ao teu lado, sem que me vejas, lentamente afio as pedras e as facas do fundo das minhas pupilas, para que a noite não me encontre outra vez insone, recompondo sozinho um por um dos teus traços, dos teus pêlos, para que quando esses teus olhos escuros e parados como as águas do mar de inverno na praia onde talvez caminhes ainda, enquanto me adestro em gumes, resvalarem outra vez pelos meus, que seu fio esteja tão aguçado que possa rasgar-te até o fundo, para que te arrastes nesse chão que juncamos todos os dias de papéis rabiscados e pontas de cigarro, sangrando e gemendo, a implorar de mim aquele mesmo gesto que nunca fizeste, e nem mesmo sei exatamente qual seria, mas que nos arrancasse brusco e definitivo dessa mentira gentil onde não sei se deliberados ou casuais afundamos pouco a pouco, bêbados como moscas sobre açúcar, melados de nossa própria cínica doçura acovardada, contaminados por nossa falsa pureza, encharcados de palavras e literatura, e depois nos jogasse completamente nus, sem nenhuma história, sem nenhuma palavra, nessa mesma beira de mar das costas da tua terra, e de novo então me vens e me chegas e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque é assim que és e unicamente assim é que me queres e me utilizas todos os dias, e nos usamos honestamente assim, eu digerindo faminto o que o teu corpo rejeita, bebendo teu mágico veneno porco que me ilumina e anoitece a cada dia, e passo a passo afundo nesse charco que não sei se é o grande conhecimento de nós ou o imenso engano de ti e de mim, nos afastamos depois cautelosos ao entardecer, e na solidão de cada um sei que tecemos lentos nossa próxima mentira, tão bem urdida que na manhã seguinte será como verdade pura e sorriremos amenos, desviando os olhos, corriqueiros, à medida que o dia avança estruturando milímetro a milímetro uma harmonia que só desabará levemente em cada roçar temeroso de olhos ou de peles, os gelos, os vermes roendo os porões que insistimos em manter indevassáveis, até que o não-feito acumulado durante todo esse tempo cresça feito célula cancerosa para quem sabe explodir em feridas visíveis indisfarçáveis, flores de um louco vermelho na superfície da pele que recusamos tocar por nojo ou covardia ou paixão tão endemoninhada que não suportaria a água benta de seu próprio batismo, e enquanto falas e me enredas e me envolves e me fascinas com tua voz monocórdia e sempre baixa, de estranho acento estrangeiro, penso sempre que o mar não é esse denso escuro que me contas, sem palmeiras nem ilhas nem baías nem gaivotas, mas um outro mais claro e verde, num lugar qualquer onde é sempre verão e as emoções limpas como as areias que pisamos, não sabes desse meu mar porque nada digo, e temo que seja outra vez aquela coisa piedosa, faminta, as pequenas-esperanças, mas quando desvio meu olho do teu, dentro de mim guardo sempre teu rosto e sei que por escolha ou fatalidade, não importa, estamos tão enredados que seria impossível recuar para não ir até o fim e o fundo disso que nunca vivi antes e talvez tenha inventado apenas para me distrair nesses dias onde aparentemente nada acontece e tenha inventado quem sabe em ti um brinquedo semelhante ao meu para que não passem tão desertas as manhãs e as tardes buscando motivos para os sustos e as insônias e as inúteis esperas ardentes e loucas invenções noturnas, e lentamente falas, e lentamente calo, e lentamente aceito, e lentamente quebro, e lentamente falho, e lentamente caio cada vez mais fundo e já não consigo voltar à tona porque a mão que me estendes ao invés de me emergir me afunda mais e mais enquanto dizes e contas e repetes essas histórias longas, essas histórias tristes, essas histórias loucas como esta que acabaria aqui, agora, assim, se outra vez não viesses e me cegasses e me afogasses nesse mar aberto que nós sabemos que não acaba nem assim nem agora nem aqui...............................................................................................................................................................

Caio Fernando Abreu - Os Dragões não Conhecem o Paraíso